14/04/16

O Vidente (Parte 6)

Conforme os anos passaram, Jack fez os favores que o Vidente lhe ia pedindo, e, como prometido, para cada favor, recebia a sua recompensa. As recompensas surgiam muitas vezes de formas inesperadas e interessantes... Uma das recompensas mais memoráveis de Jack aconteceu cerca de 2 anos depois de ele concordar em ajudar o Vidente.

"Jack, eu preciso que tu vás à loja de licores do Garmin às exatamente à 00:37. Um homem irá fazer-te uma questão. A resposta que tu lhe irás dar será «27»."

Como sempre, as instruções do Vidente eram simples e diretas, porém misteriosas.

No dia seguinte, conforme solicitado, Jack entrou na loja. Na frente dele, um trabalhador da construção corpulento estava no balcão do preenchimento de uma lotaria.

"O meu aniversário, que é dia 15, o da minha esposa, que é 24, e as idades dos meus filhos, 2, 10 e 13 anos."

O homem coçou a cabeça e olhou em volta, voltou-se para Jack e disse:

"Hey, amigo! Preciso de um outro número. Tem um para mim?"

Jack sorriu "Vinte e sete."

"A sério, estava a pensar em algo como trinta e cinco, mas sabes que mais? A tua cara diz-me alguma coisa, vamos com vinte e sete!"

O homem completou a lotaria e pagou o seu bilhete.

Jack não conseguia parar de pensar no que aconteceria ao homem...

"Apenas não te preocupes, Jack, tu nunca conseguirás perceber como as coisas acabam... Apenas deixa-te surpreender..."

Ainda assim, foi impossível não se questionar sobre estas coisas de vez em quando. Ele sabia que considerando a forma como ele tinha previsto tantas coisas, não havia forma de saber se "27" seria uma chave que o faria perder milhões e milhões de euros, quando a correta seria... 35? Ou será que ele iria ganhar tudo? Afinal, o que aconteceria depois?

E realmente o que aconteceu foi o inesperado, pois duas semanas mais tarde, ele deparou-se com o mesmo homem novamente no supermercado...

"Hey, amigo!!! Eu lembro-me de ti! Olha só, ganhei!"

Realmente, aquele homem tinha aspeto de um milhão de euros... Roupas novas, relógio de ouro e um grande sorriso pateta. O homem caminhou até Jack.

"Eu achei que nunca mais te iria ver, mas estou feliz por estares aqui. Sem ti nunca poderia ter ganho! Deixa-me comprar-te isso!" - apontando para os mantimentos de Jack - "Temos que tratar as pessoas bem, é o que diz a minha mãe!"

Enfiando a mão no bolso, o homem tira o talão de cheques e prontamente escreveu a Jack um cheque de 10.000€.

"É o mínimo que posso fazer pelo meu amuleto da sorte!"

Depois de lhe agradecer, sentindo-se ainda um pouco confuso com tudo, Jack correu para casa, depois de ligar o computador, Vidente apareceu no ecrã:

"Bem, Jack, como é a sensação de ser 10.000€ mais rico?"

Jack começou a escrever no teclado:

"Bem, é bom, mas eu não posso ajudar... Mas pergunto... Nós nunca ajudámos ninguém antes... Porque estamos a começar agora?" - Jack começou-se a sentir culpado, pois nunca gostou de admitir que as pessoas estavam a ser prejudicadas pelas suas ações, mas neste caso a sua curiosidade estava a oprimir quaisquer sentimentos de culpa...

"Oh Jack... Nós não ajudámos ninguém... Sim, o homem é feliz agora, mas vai perder até ao último centavo dentro de dois anos... Tu viste como ele era, simplesmente manda o dinheiro fora... Velhos amigos, parentes perdidos, todos a pedir-lhe dinheiro, alguns maus investimentos e o stress de perder tudo vai fazer com que a esposa o deixe e leve as crianças... Vai ficar sozinho e estragado... Um homem arruinado. Mas Jack... Não te sintas culpado, pois é a própria estupidez e ganância do homem que irá fazer com que isso lhe aconteça..."

Jack sentiu algum peso, mas a racionalização do Vidente e concentrando-se na sua própria recompensa sempre o tranquilizou no final...